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Um ensaísta entusiasmado

Bibliographic Data

ID3067676
AuthorsAdelia Bezerra De Meneses (0000-0002-0906-8680, Universidade de São Paulo, corresponding author)
Year2015
Volume29
Issue85
Pages385-388
Publication date2015-12-01
Open AccessYes
TypeARTICLE
VenueEstudos Avançados (JOURNAL)
Journal identifiersISSN: 0103-4014 • E-ISSN: 1806-9592
PublisherFapUNIFESP (SciELO) (PUBLISHER)
DOI10.1590/s0103-40142015008500027
OpenAlexW2297870948
SciELOS0103-40142015000300027
LanguagePT

385 E ssas palavras de Socrates no Dialogo Ion de Platao poderiam servir de epigrafe a Escritores, gatos e teologia de Waldecy Tenorio, coletânea de ensaios em que se articulam literatura e o que ele chama de “teologia”. Sim, para o autor, os poetas e ficcionistas – mesmo os mais entranhadamente ateus – seriam, para se usar o termo platonico, “enthousiasmados” (etimologicamente: en + theos: com um deus dentro). Aqui radica um no, a que eu retornarei mais adiante. Antes, um elenco sucinto das principais questoes afloradas ao longo dos ensaios que compoem a coletânea, como um leitmotiv: a via estetica como experiencia do sagrado; a arte como lugar epifânico; a ideia da teologia como a pergunta sobre o sentido ultimo das coisas; e, sobretudo, o esforco pungente de aproximar literatura e teologia. E tudo isso numa prosa leve e limpa, uma escrita calorosa, de comunicacao sem travas com o leitor, com a dose exata de humor a nos conduzir pelo cipoal de citacoes, o mesmo humor espontâneo que inventou a “mediacao” divertida dos gatos para costurar os varios capitulos do livro – gatos que, como se sabe, desde o Egito Antigo, tem trânsito livre para a transcendencia e habitam o imaginario e os telhados de varios escritores famosos. E provindas de aficionados a gatos, ou nao, ha citacoes de autores (do quilate de Octavio Paz, Baudelaire, Fernando Pessoa, Guimaraes Rosa, Clarice Lispector etc.), comprobatorias de “hierofanias” nos textos literarios, numerosissimas, mas que acabam por nos conquistar por sua eficacia estetica. Senao, vejamos: “Quem me dira se no arquivo secreto de Deus / estao as letras do meu nome?” (J. L. Borges); “Nos gritamos SIM ao eterno” (Drummond); “Existirmos, a que sera que se destina?” (Caetano Veloso); “Deus doi” (Unamuno); “Abre teus olhos, meu Deus / Come de mim a tua fome” (Hilda Hilst); “Tua ausencia me rodea como la cuerda a la garganta” (J. L. Borges). Ou ainda, de Baudelaire, sobre a Poesia: “uma exigencia devastadora de Absoluto”. Mas nao so de citacoes-testemunho e de reflexoes teoricas se constroi esse livro: alguns de seus capitulos propoem analises literarias, sob a optica da teologia (ou seria vice-versa: abordagens teologicas com um instrumental da literatura?), como e o caso do estudo sobre o Evangelho Segundo Jesus Cristo, em que se rastreia a tensao entre o Jesus e o Deus de Saramago, com indisfarcavel simpatia pelo primeiro, o que faria o ficcionista entrar na categoria de “teologo charlatao”; ou o capitulo sobre Joao Cabral, “teologo inconfessavel”, por conta da mesma “tensao com a linguagem” que os misticos experimentam. Mas ha Um ensaista entusiasmado Adelia Bezerra de Meneses I

Art · Cultural, Media, and Literary Studies · Linguistics and Education Research · Literature, Culture, and Criticism

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